“Elena”, de Petra Costa. O filme é de uma sensibilidade ímpar e trata do corpo em várias dimensões.

por: Julia Machado – Vestido de Letras – 24/5/2013

Elena

Uma amiga muito querida, por mim muito admirada (colega da universidade), ao ser convidada para conhecer este espaço, disse-me que não imaginava que eu pudesse, um dia, criar um blog de moda, pois me achava muito “intelectual”. Adorei o comentário, tanto pela impressão que ela tem/fez de mim, quanto pelo efeito surpresa revelado. Vindo dela, considerei “intelectual” como algo ligado ao pensamento crítico, à leitura cuidadosa. Isso – penso eu – é um elogio.

A existência deste blog, que vai ganhando corpo, é uma surpresa boa para mim também. Nunca planejei investir em um espaço de escrita que circulasse publicamente. Sempre fui leitora e sempre senti necessidade e gostei de escrever – mencionei isso neste texto -, mas fazia isso em meus caderninhos, de porta fechada. Estudo psicanálise, fiz especialização, mestrado, e fui escrevendo cada vez mais em um estilo acadêmico. Aos poucos, fui sentindo falta de poder escrever sobre assuntos variados, de uma forma mais livre e leve. Antes de estudar psicologia, cursei Jornalismo durante um ano e hoje considero que essa prática da escrita diária, voltada – também – para os leitores, ocupando um espaço público, tem muito a ver com o que eu gosto de fazer. Aqui estou, retomando esta prática.

A moda, por outro lado, sempre me fascinou – desde que me entendo por gente – enquanto forma de pensamento, de expressão, de criação, de contorno de um corpo, enquanto busca de um caminho para se expressar a partir de um contexto cultural, de se afirmar socialmente, de tratar o mundo esteticamente. Hoje, penso que a moda pode e deve ser tratada pelo viés “intelectual”, como o efeito da combinação do gesto com o pensamento. Como a escrita de um corpo. E a escrita é pensante.

Este blog surge da necessidade de poder escrever livremente, de compartilhar idéias, de comunicar e pensar sobre diversos assuntos. Veio, como disse aqui, da necessidade deescrever um corpo, de escrever com (incluindo o outro real, concreto, na lógica pensante), de construir junto, de colocar pensamento no gosto. Neste ponto, considero que a estética se aproxima da ética. Ao invés de desfrutar da criação de modo autístico, podemos incluir o outro em nossas pesquisas, dialogar, compartilhar, criticar, escutar, rever, desviar. Este é o intuito deste espaço. Quero um espaço de construção de estilo, e não apenas de reprodução do que chega até mim. Por isso, considero que este é um espaço “intelectual”. Um espaço de criar e pensar formas, escrita, imagens, gestos, incluindo o olhar do outro, a singularidade, o amor. Moda comgenerosidade, com um olhar para o Fora, com escrita. Porque o corpo é coisa muitodelicada e demanda tempo, cuidado, respeito.

Isso, sinto, vai nos levar além.

Aproveito, então, para indicar um documentário (criação, escrita em imagens) que assisti no último fim de semana: “Elena”, de Petra Costa. O filme é de uma sensibilidade ímpar e trata do corpo em várias dimensões.

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