Para viver algo como memória, é preciso afastamento

por: Adriane Barroso – blog De olho no espelho – 8/7/2013

Meu filme preferido dos últimos dias chama-se “Elena”, documentário brasileiro dirigido por Petra Costa. Resumi-lo é tarefa difícil, não só pelo risco de entregar ao leitor o mais precioso da história quanto pelo fato de o filme guardar inúmeras nuances, todas de extrema delicadeza e relevância.

Prefiro dizer que “Elena” é sobre o sonho que Petra, a diretora, carrega por toda a vida com sua irmã mais velha, que tem o mesmo nome do filme e partiu para Nova York porque também sonhava – sonhava em ser atriz. Herdou o sonho da mãe, que desde bem nova tinha devaneios com o cinema americano. Mais tarde, Petra também tornou-se atriz. O que une as mulheres dessa família, portanto, é o fascínio pela ficção, pelo “faz de conta” que torna a brutalidade da vida mais suportável.

É de maneira brutal que Petra e Elena se separaram, quando a diretora tinha sete anos. Desde então, ela carregava em seu corpo as marcas da irmã – suas histórias, seu diários, suas fitas em VHS, as lembranças de sua voz… e sua presença em sonhos recorrentes.

Para poder se separar de Elena, Petra fez um filme. Precisava encontrar o que era seu em meio a um baú de memórias, de maneira a não ser consumida pela brutalidade. Para se descobrir, precisou presentificar, fazer viva a irmã de quem se separou e, então, separar-se dela de vez, sem precisar carregar para sempre Elena em seu próprio corpo.

“Você é minha memória inconsolável”, Petra diz sobre Elena. Para viver algo como memória, é preciso afastamento, luto, fechamento. Para existir como sujeito, é preciso saber em que ponto abandonar o outro, o corpo do outro, torna-se fundamental. “Elena” é testemunha delicada do percurso da autora para poder fazer-se sujeito.

Adriane Barroso é psicanalista, doutorando em Psicologia

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