Elena

por:  – apoesiadestemomento – 1/6/2013

Hoje chegou a Campinas (finalmente!) o documentário “Elena”, que vem sendo tão elogiado desde seu lançamento. Eu, que não via a hora de poder vê-lo, fui à estréia e, como sempre ocorre quando um filme me proporciona mais que algum tempo de divertimento, voltei precisando escrever sobre ele e resolvi tomar vergonha na cara e fazê-lo em um meio apropriado. Criei esse blog para esses momentos de necessidade literária.

Minha primeira reflexão nos primeiros minutos de filme foram acerca da câmera: imagens andando com certa velocidade, sem focar por algum tempo e depois cenas simplesmente da cidade e me espantou como nossos olhos acostumados ao dinamismo norte-americano estranham. Não assisto os famosos filmes cult como gostaria e admito: meus olhos estranharam essa lentidão.

Os olhos acostumados, comecei a pensar sobre a narração constante do filme. Primeiro, fiquei encantada ao refletir sobre aquele “gênero” que não sei que nome dar, pois a construção da nossa relação com o filme se dá por duas linguagens: a imagem e a fala. Nós vamos construindo Elena a partir dessas impressões e talvez o que tenha me encantado é que são de um lirismo absurdo. Importa realmente os acontecimentos? Pouco, muito pouco, o que estabelece nossa relação com o filme é a poesia da busca, da relação perdida, da lembrança. Acompanhamos tudo isso pela reconstituição da memória sentimental da narradora e sem perceber mergulhamos no filme como se fossemos ela mesma.

O mesmo acontece com a imagem, pois a recuperação das memórias nos faz construir a lembrança de Elena em paralelo com a narradora, nossos olhos e emoções parecem se fundir.

Pensei nisso durante o filme todo, porque não entendia minha impressão de espectadora, porque Elena vai chegando assim, sem avisar e do encantamento daquela personalidade ímpar, do lindo da espontaneidade de seu talento e vocação, nos vemos tomados pela angústia e dor de sua irmã até o fim. Não há volta. Não há refúgio.

Saí sem conseguir pensar na história em si, o que achava dela, se era triste ou não, porque não importava. Porque, no fundo, a história é conhecer Elena, mergulhar nela para depois esquecê-la.

Semana passada fui assistir “bonitinha, mas ordinária”, a nova adaptação do texto de Nelson Rodrigues e hoje me dei conta de que, naquela ocasião, minha cabeça saiu pensando, refletindo sobre tudo que é exposto no filme. Hoje, meu coração saiu funcionando, pois estamos falando de poesia, do sensível, estamos falando de entender uma experiência humana, entender não, sentir e aceitar que um furacão chamado Elena veio e nos deixou assim, sem fôlego e é preciso aceitar simplesmente e deixá-la ir.

E no fim de tantas reflexões inacabadas, há horas só consigo pensar na minha querida Clarice Lispector: “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.

Vivam Elena, é meu conselho e vivam rápido que filmes como esse não duram em cartaz contra o cine pipoca hollywodiano.

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