E ela? Não volta mais?

Por Samanta Esteves – Blog Entre o Ser e as Coisas – 25/08/2014

6777734568_1852fa2ee5_z“Elena, sonhei com você essa noite. Você era suave e andava pelas ruas de Nova York com uma blusa de seda. Procuro chegar perto, encostar,sentir seu cheiro. Mas quando eu vejo você está em cima de um muro, enroscada em um emaranhado de fios elétricos. Olho de novo e vejo que sou eu que estou em cima do muro, eu mexo nos fios buscando tomar um choque e caio de um muro bem alto. E morro.|

Assim começa o documentário de Petra Costa, narrando um sonho e brincando com imagens fugidias e fluidas, como as lembranças rarefeitas que guarda de Elena, sua irmã. A narrativa intimista acerta ao recusar a arrogância do discurso documental. Não quer encontrar respostas ou validar verdades sobre a morte da irmã. E, principalmente, não busca representar fielmente os acontecimentos, porque nenhuma representação é capaz de reconstituí-los, senão através de vagos fragmentos que se sabem limitados.

Ao falar sobre a irmã, Petra não busca certezas, senão impressões – estas, sempre frágeis, duvidosas, contaminadas pelo tempo e pelo olhar. A narrativa é composta por um mosaico de impressões unidas por um fio frágil: a voz de Petra.

A história pessoal da diretora não nos interessa apenas porque comove, mas porque toca em uma questão essencial para a existência humana: a possibilidade de recriar o passado,  ressignificando o que ficou. Petra  busca Elena mergulhando no lago de sua memória e encara a ausência da irmã em um ato de saudade e de coragem.

Mergulha para não se afogar.

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Ao olhar para a morte, é sobretudo a vida que Petra está buscando, mas a vida só existe nas lembranças, nas palavras. “As memórias vão com o tempo. Se desfazem. Mas algumas não encontram consolo. Só algum alívio nas pequenas brechas da poesia. Você é minha memória inconsolável feita de pedra e de sombra. E é dela que tudo nasce e dança”, diz em uma cena. É exatamente essa passagem quase imperceptível da vida que somos convidados a testemunhar, essa  mágica que se dá nas brechas da existência, quando saudade vira dança e a angústia; poesia. Criação.

Vencer a morte não é viver, é criar. Elena criava. Seu corpo de atriz dava vida a matéria morta. Era tão boa atriz que talvez a dor de cada personagem representado tenha ficado cravada em seu corpo como ferida aberta. Nos caminhos infinitos da arte, Elena estava sempre a morrer, como quem encena a morte para conseguir viver.

Por algum motivo, a luz emanada da arte deixou de iluminar Elena, tão jovem. Por que será que as coisas deixam de fazer sentido para alguém? Pergunto quando a morte se dá.

A morte acontece quando a gente morre?  Quando a mente deixa de sonhar? Quando o coração pára de bater? De diversas maneiras, a morte se dá no instante em que os sentidos se perdem, dissolvem.

Para Elena, o significado da vida residia na arte.  Quando Elena perde a arte como possibilidade de sentido, não consegue mais fazer teatro e a vida se torna  impossível.

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Seu sofrimento; insuportável. Se a existência é movimento, não há vida fora dele.

O que não é criação, é estado de morte.

Elena é uma obra de angústia, de dor. Não suaviza tristezas, não oferece saídas. É, por vezes, cruel. A beleza está nas pequenas delicadezas do cotidiano, desvendada na poesia garimpada da memória, que não vem pronta. É sempre busca.

Em Elena, tudo dança, se move. As cenas, as lembranças, o tempo. A impressão que fica é a de que as memórias vibram, na tentativa de criar sentido a uma ausência latente, ao que já não é. Sua busca nos diz respeito, na medida em que Petra nos traz a experiência de um percurso que revela o movimento inerente a vida, a delicadeza oculta na arte, o alívio das memórias inconsoláveis.

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