Diretores apostam nas vivências pessoais para fazer documentários

por: Ricardo Daehn – Correio Braziliense – 8/6/2013

Diante de um tema, cineastas estão livres para criar, emocionar e, sim, manipular, com os mais variados artifícios. Especialmente no documentário, pelo compromisso com a dita realidade, um senso ético e de responsabilidade pode ser, de modo singular, exigido. A intervenção torna-se ainda mais cirúrgica quando a abordagem ganha contornos, literalmente, familiares. Mapeando cenários e afetos, coletando depoimentos de conhecidos, vários diretores brasileiros têm investido no caminho de examinar e expor suas próprias vivências. Como o diretor Cristiano Burlan (leia entrevista abaixo), que no documentário Mataram meu irmão — premiado no último festival É tudo verdade — reacende circunstâncias que levaram ao assassinato do irmão, Rafael, com sete tiros.

A intimidade também deu sinal verde para a “coisa mais difícil num filme: ter a certeza de que o longa deve ser feito”, nas palavras da mineira Petra Costa, que conduz o documentário Elena, em cartaz em mais de 10 estados brasileiros. Depois do experimento com o curta Olhos de ressaca (2009) — em que revelou a vida em comum dos avós —, Petra optou por narrativa híbrida (“um ensaio construído, em forma de busca”) para relatar, com fundo lírico, a morte da irmã.

Com “tudo tão próximo”, montadoras e roteirista serviram de filtro indispensável. “Foi muito doloroso”, diz Petra. A diretora conta que, num processo contínuo de ressurreição e morte, Elena foi ganhando vida e corpo, a partir de entrevistas e imagens de arquivo, e morrendo de novo. “Quando ela morreu, eu tinha 7 anos; senti como uma criança. Não compreendia que era algo para sempre”, comenta.

Na reelaboração, ou no “dançar com a memória” da irmã, Petra foi impulsionada pela revolução teatral de Living Theatre, Robert Wilson e Anne Bogart. Num workshop com o grupo Teatro da Vertigem, brotou muito de Elena. “Eles acreditam no depoimento pessoal e na criação de cenas, por meio da investigação interna”, explica. Com o exercício intitulado “O livro da vida”, Petra revolveu aos diários da irmã. “Eu ainda nem estudava cinema, que chegou, na verdade, pela antropologia. É a visão que permite ao autor se colocar, pela impossibilidade de ser objetivo”, conta, acrescentando que a fissura, criada nos anos 60, com o posicionamento do autor, foi admirada nos filme de Chris Marker (La jetée) e Agnès Varda (Les plages d’Agnès).

Três anos de trabalho tiveram o elemento facilitador da vivência. O apoio da mãe, envolvida no drama, foi fundamental. “Ela disse: ‘Talvez, virando fime, deixe de ser um filme na minha cabeça’. Na estreia em Brasília, minha mãe sentiu uma redenção, no acolhimento do público. Realização, mesmo, estou tendo agora, com a resposta das pessoas. Elas dizem que veem suas próprias memórias, as suas Elenas. Sinto uma nova significação de perdas e de angústia. Uma transformação”, completa.

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