Coragem, amanhã é outra manhã

por: Leandro Antonio – Sessões de Cinema – 7/6/2013

Disseram-me uma vez:

“Bergman declarou nunca trazer suas questões pessoais para sua obra, pois pensava ele que esta era uma forma medíocre de arte e que esquadrinhava com seus filmes era mergulhar em questões universais”.

Vai saber o quanto de verdade, mentira, mito ou blefe há nesta conversa? Enfim, para mim chegou assim. No fim, como diz uma amiga minha: “É só outra efeméride!” Mas, não deixa de servir como introdutório para poder esboçar um pouco sobre uma das sensações que o filme “Elena” trouxe. Embora já tenha visto alguns documentários “autobiográficos”, foi a primeira vez que percebi alguém ir fundo nesta ideia de expor fraquezas. A realização do filme, traz a superfície e revive um passado de desgosto, que sujeita não apenas a diretora, como todas as pessoas que de alguma maneira envolveram-se com Elena afetivamente, a uma desconfortante exposição – Só por isto já deve ser considerado um trabalho corajoso. Corajoso e intocável, por tratar-se de um relato indiscutivelmente pessoal. Quem poderá remendar, criticar ou rechaçar alguém que se põe a sua frente de maneira tão íntima? Sim, muitos fariam isto, mas penso que uma gota de sensibilidade já é suficiente para frear este tipo de impulso.

Elena nos deixa perguntas. A que vem ao caso aqui por enquanto é – Será uma não-ficção de si mesmo um gesto audaz?

O artista mesmo falando em primeira pessoa normalmente está falando em terceira. Quando colocado diante de sua criação e da apreciação de outrem está travestido de si mesmo a fim de se proteger, por ego, por medo de reprovação, por tantas coisas… Por isso é medíocre!? E por isso é passível de qualquer saraiva? Inventar uma ficção de si mesmo e partilhá-la pode ser um enorme demonstração de covardia. Claro que a resposta não é tão simples e opostos estão aí contidos e não-contidos.

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