Anseios, mágoas e pesares são palpáveis

por: Marcelo Silva, um dos resenhistas da equipe do blog Cinema Detalhado – 21/5/2013.

Se perder um ente querido quando adulto, maduro, não é fácil. Imagina sendo uma criança? E se a morte ainda for advinda de um ato de desespero como o suicídio? A falta de compreensão, um estranho sentimento de culpa se formando, a necessidade de resposta para aquilo pode ser deveras traumatizante. Um fardo a ser carregado. Certo é que cada indivíduo lida com a situação de forma diferente, principalmente se segue alguma crença religiosa. Às vezes pode ser até um fator complicador. Mas a ideia cristã para morte também pode ser reconfortante. Não é o caso da diretora Petra Costa. Em seu documentário de viés intimista, Elena, não existe interesse em dialogar sobre práticas religiosas ou a ausência delas. Contudo, uma singela cena deixa as claras que desde a sua mais tenra infância, Petra não acreditava em Deus. Talvez pela influência de seus progenitores militantes radicais de esquerda durante a ditadura. Petra acreditava em sereias, mas não em uma divindade. Importante salientar que não é levantada nenhuma bandeira em prol do agnosticismo nessa obra de beleza ímpar.

Apesar de ser uma consideração sutil dentro do roteiro assinado por Petra Costa e Carolina Ziskind e não motivadora da narrativa, não deixa de ser curioso observar como a morte pode ser encarada de forma muito mais direta por um cético. Afinal, a pessoa simplesmente deixa de existir, ela não irá para um paraíso, inferno ou algo parecido. Não existe a acolhedora vida após a morte ou o temente conceito da punição eterna. E nem vou entrar em outros méritos, não se faz necessário e não quero perder o foco no que é importante aqui. Deixando de lado essa introspecção (talvez inútil) desse que vos escreve – o cineasta Fernando Meirelles disse que Elena provoca 60 Insights por minuto – esse poético, melancólico e sensorial documentário tem como ideia principal colocar um ponto final, um fecho digno no luto de sua diretora. Utilizando de imagens de seu arquivo familiar, além de gravações de voz da própria Elena, irmã de Petra Costa que no auge da depressão se suicidou em 1990, a diretora remonta essa trajetória de final trágico. Para isso, ora se faz de narradora ora de observadora dos fatos e sempre se apoiando no olhar pontual de sua mãe.

E por que fazer isso através de um filme? O sonho de Elena era ser atriz de cinema. E por isso foi tentar a sorte na Nova Iorque do final dos anos 80, quando tinha somente 20 anos. Sonho é diferente da realidade e quando não se está preparado para uma decepção (ninguém está), ela pode mesmo ser acachapante. Mas Elena de Petra Costa também não tem interesse de encontrar os motivos da avassaladora depressão que se apossou de sua irmã. Pontua-se aqui e ali alguns sintomas. Porém, o cuidado maior é dimensionar o amor que a intensa Elena tinha pela pequena Petra. A diferença de idade entre ambas era de 13 anos. E as imagens de arquivo pessoal comovem ao mostrar toda a atenção e ternura que Elena nutria pela irmã mais nova. As pequenas encenações em frente a câmera, a dança revelada como paixão da retratada, a paz despreocupada. Logo, ainda que real, não deixa de ser também uma homenagem da diretora ao retratar sua irmã como uma personagem. A protagonista de seu filme, com as virtudes e fraquezas que somente as grandes heroínas do cinema têm.

Relatado com afeto através da suave e doce voz de Petra Costa, Elena não é somente um documento pessoal, um exercício de acerto de contas. Mesmo a trama abordando problemáticas pessoais de sua corajosa realizadora, o virtuoso apanhado demonstra propriedade para transcender suas limitações quanto conteúdo fechado e se tornar de caráter universal. É quando o filme cresce, se apropria da nossa memória afetiva. A dor e tristeza compartilhada encontra fácil identificação. Anseios, mágoas e pesares são palpáveis. O regozijo se faz necessário. E aos poucos ele vai surgindo, embalado por imagens encantadoras, como o inspirador balé aquático – “A dor vira água”, afirma Petra Costa. Essa emoção que flui naturalmente, ressoa com força no público. E da forma mais sincera possível. Ao ponto de uma simples câmera simulando os movimentos da lua – “Tó dançando com a lua”, diz Elena – ser suficiente para extrair sentimentos adormecidos e nos remeter as coisas simples que realmente fazem diferença na nossa existência.

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