Alegria, dor e encanto

Gabriele Santos – Vício Diário – 29/5/2014

Sinopse: Elena viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar e deixa Petra, a irmã de 7 anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e embarca para Nova York em busca de Elena. Tem apenas pistas: filmes caseiros, recortes de jornal, diários e cartas. A todo momento Petra espera encontrar Elena caminhando pelas ruas com uma blusa de seda. Pega o trem que Elena pegou, bate na porta de seus amigos, percorre seus caminhos e acaba descobrindo Elena em um lugar inesperado. Aos poucos, os traços das duas irmãs se confundem, já não se sabe quem é uma, quem é a outra. A mãe pressente. Petra decifra. Agora que finalmente encontrou Elena, Petra precisa deixá-la partir.

“Pouco a pouco as dores viram água, viram memória. As memórias vão com o tempo, se desfazem. Mas algumas não encontram conforto, só algum alívio nas pequenas brechas da poesia. Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra. E é dela que tudo nasce e dança.”

Eu li a primeira vez sobre este filme no facebook e fiquei encantada com a proposta, e depois de assistir ao trailer foi puro amor e mais desejo de conhecer a história de Elena.

ELENA é um filme/documentário lançado em 2012, dirigido por Petra Costa. Ele conta a história da atriz Elena Andrade, irmã de Petra. Aos dezessete anos Petra encontra os diários da irmã e várias horas de filmes caseiros que ela escrevera e filmara ao longo da sua vida.

Elena tinha treze anos quando ganhou uma câmera de filmagem e Petra, sua irmã. Quando adolescente, ela criava cenas e dirigia a pequena Petra em suas atuações. Por cinco anos ela integrou as maiores companhias de teatro de São Paulo, fez alguns testes mas nunca foi chamada. No inicio dos anos 90, com vinte anos, ela se muda para Nova York para estudar artes cênicas e batalhar uma chance no mercado americano. Como forma de manter a família informada sobre sua vida, ao invés de escrever cartas, ela faz alguns vídeos. No novo mundo Elena se encontra ansiosa para viver seus sonhos, mas se descobre deslocada e frustrada após alguns testes sem sucesso. Muito decepcionada com a falta de reconhecimento e abatida por uma depressão que se agravava cada vez mais, ela se suicida no segundo semestre. Petra tinha sete anos. Depois de vinte anos é ela quem retorna aNova York para refazer os passos da irmã, tentar de alguma reencontrá-la. E a encontra, onde jamais poderia imaginar. ELENAé filme belíssimo sobre saudade, perda mas sobre reencontro. É sobre legado e memória.

“Será que a minha raiz vai conseguir arrebentar asfaltos, canos e prédios pra sobreviver e gerar frutos? Sim, se minha raiz fosse forte, grande, mas sinto que a minha semente nem chegou a brotar direito ainda. Então, provavelmente em uma cidade, ela se brotasse, miúda e doente viveria.”

O filme é todo narrado pela voz de Petra, e começa contando a vida da família a partir da adolescência da mãe das meninas. Como ela também queria ser atriz e desistiu deste sonho para viver uma aventura com seu grande amor lutando contra a Ditadura Militar. Com as filmagens caseiras de Elena, Petra segue narrando a adolescência da irmã, o seu nascimento e a viagem a Nova York. Em um momento do filme, a mãe passa a ter participação efetiva contando como foi viajar para Nova York com Petra para ficar com Elena, e como foi vê-la definhar aos poucos até encontrá-la sem vida dentro de casa.

O que mais encanta no filme é o tom poético e as imagens que seguem o mesmo ritmo. A cada momento você é tocado de uma forma distinta. São emoções que se misturam entre alegria, dor e encanto.

Eu falei com minha professora de Cinema da faculdade e ela disse que é um bom filme, mas peca no final porque é como se Petra se tornasse egoísta e tomasse o filme para si. Como uma narscisista, ela teria colocado Elena de lado para, enfim, ressair. Fiquei pensando sobre isso, re-assisti ao filme e definitivamente discordei. Ao meu entender o filme é sobre duas irmãs. A Elena de Petra, e a Petra de Elena. Petra refaz os passos de Elena e a reencontra nela mesma. É como se, de alguma forma, Elena vivesse dentro dela. É a memória dela que permanece viva, seja pelas cartas, diários e vídeos que ela deixara, ou pelas poucas lembrança do tempo que conviveram.

“Eu quero morrer. Razão? Tantas que seria ridículo mencioná-las. Eu desisto, desisto porque meu coração tá tão triste que eu sinto achar-me no direito de não perambular por aí com esse corpo que ocupa espaço e esmaga mais o que eu tenho de tão, tão frágil.”

Quando Petra decide fazer vestibular e coloca como opção o mesmo curso de Elena, é como se a irmã renascesse nela. Não apenas na memória, mas dentro dela. Petra passa pelos mesmos sentimentos da irmã antes de morrer: cansaço, dor, tristeza. Para não pôr fim a própria vida, ela decide encenar a sua morte. Não somente a dela, mas a de Elena também, pois somente assim ela poderá conviver com os sentimentos de estar se transformando na irmã.

“Se ela me convence que a vida não vale a pena, eu tenho que morrer com ela”

Na medida em que refaz os mesmos passos de Elena, percorre as ruas de Nova York, assiste seus vídeos e lê seus diários, Petra entende que sua irmã está morta e o que ela tem são apenas lembranças. Petra aprende a se conformar a assumir seu próprio papel em seu filme, e, acima de tudo, ela entende os motivos que fizeram Elena partir.

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