A família como destino

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O crítico de cinema Thiago Stivaletti compartilha em seu blog, o Longos Planos, suas impressões após assistir ao filme no cinema.

Leia, abaixo, o post de Thiago:

Já tinha visto duas vezes em DVD Elena, o lindo documentário de Petra Costa sobre a morte da irmã – no início do ano, trabalhei um mês na produtora da Petra, ajudando no início da divulgação do filme. Hoje o vi na tela grande pela primeira vez, e ainda estou sob impacto – o filme só ganhou mais força.

Elena faz parte de um gênero ainda raro no Brasil – o documentário pessoal ou autobiográfico. Penso em 33, o interessante filme-ensaio de Kiko Goifman em que ele investiga suas reais origens após se descobrir filho adotado. Mas a história de Petra é mais complicada. Elena, sua irmã bem mais velha, atriz talentosa e muito sensível, entrou em depressão profunda ao tentar a carreira de atriz de cinema em Nova York e se suicidou. Como lidar com tal herança? Vinte e dois anos depois da morte da irmã, Petra responde da melhor maneira: arriscando um caminho, fazendo um filme, fazendo arte.

Ancorado numa belíssima e poderosa montagem sensorial, que privilegia as sensações táteis aos depoimentos, Elena chama a atenção por não ter um único plano fixo, estável. A câmera é reflexo da paisagem emocional de Petra: sempre buscando, tateando, balançando, sendo atraída e ao mesmo tempo temendo a identidade familiar. O próprio rosto de Petra é filmado de todas as maneiras possíveis (caminhando de perfil, buscando um autorregistro, de longe), mas nunca de forma estável, serena, contemplativa.

Elena é um filme sobre a família como destino e como uma certa missão a se cumprir e a se superar. Em seu crescimento, Petra aceita fazer algumas escolhas idênticas às da irmã (a maior delas é a carreira de atriz), não sem temer o abismo, o risco. Mas supera a dor e se torna cineasta da própria alma. Cumpre a finalidade última da boa arte: produzir sentido – sentido à vida de Petra e à morte de Elena.

Nos quinze minutos finais, de tirar o fôlego, Petra encena a dor por meio da água, que no Zodíaco é o elemento dos sentimentos. Ela e a mãe flutuando numa água límpida sugerem um útero familiar do qual (ainda) conseguem tirar forças para continuar. Elena dança. Petra dança. Pela força da montagem, as duas voltam a se unir por um momento, na tela. Elena, o filme, é cinema de purgação e de superação. O espectador, de alguma forma, sai revigorado com tamanha força.

 

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