A dor e o encanto

Por: Dario Façanha – blog Sétima Crítica – 15/8/2013

Segundo Amir Labaki:

“Por muito tempo, sobretudo devido ao impacto da escola griersoniana de documentário didático socialmente engajado, a obra não ficcional no cinema buscou o outro, não o universo específico do próprio cineasta. A videoarte confessional dos anos 1970 e 1980 foi um marco de ruptura, que acabou influenciando a renovação do documentário com o impacto do digital a partir da década de 1990”¹.

Dentro deste contexto, produções como Santiago (Brasil, 2007) evidenciam uma recente tendência do documentário brasileiro, qual seja voltar-se “para temas próximos a vida dos diretores, evitando-se filmar apenas o ‘outro’”². Neste passo, surge a figura do documentário subjetivo no qual o cineasta participa dos fatos e interage com personagens na condição de sujeito interessado, uma vez que protagonista “de um processo de busca pessoal”³ no qual “a pessoa do realizador se funde numa espécie de personagem que protagoniza a busca”⁴-⁵.

O documentário subjetivo, vale frisar, pode ainda lançar mão de uma toada ensaística que “articula modos de abordagem e composição variados, objetos e discursos heterogêneos”₆ estabelecendo, desta feita, “ecos entre imagens, sons e acontecimentos”⁷ para, assim, constituir um filme cuja essência parte “do princípio de que imagem é um dado a ser trabalhado e relacionado com outras imagens e sons, e não mera ilustração de um real preexistente”⁸.

Por seu turno, Mariane Morisawa batiza como documentários biográficos os trabalhos baseados nas próprias histórias de vida de seus criadores. De acordo com esta: “Muitos documentaristas brasileiros optam por começar […] sua carreira com relatos em primeira pessoa e que se voltam a personagens próximos […]. Aproximando-se de quem está ao redor, esses cineastas em geral investigam a si próprios”⁹, o que resulta numa “visão realmente particular e única, porque próxima e afetada pela relação pessoal que nenhum outro cineasta no mundo seria capaz de ter”¹⁰.

Dito isso, Elena (Brasil, 2012) configura exemplo de documentário biográfico/subjetivo eis que explora as memórias da diretora Petra Costa acerca de sua irmã falecida em 1990. Logo, Elena serve de instrumento para a cineasta compreender de que forma aquela perda influenciara em seu crescimento e formação, bem como o que motivara aqueles que ficaram a seguirem com suas vidas.

Elena fala sobre dor mas o faz com imensa beleza e poesia. Com efeito, Petra Costa, auxiliada por primorosos trabalhos de fotografia e de edição, transforma em imagens o estado de espírito ora nostálgico ora angustiado da sua mãe, de sua irmã e dela própria – daí o escritor Eduardo Bueno haver afirmado que Petra encontrara um jeito de filmar a alma¹¹ – expondo, desta feita, gradativamente a intimidade de sua família sem jamais ser piegas nem exagerar na indulgencia. Neste diapasão, a cineasta demonstra respeito aos motivos que levaram Elena a ceifar a própria vida, não perdendo tempo, desse modo, com questionamentos que poderiam soar inúteis. O que interessa para ela é fazer um retrospecto de quem fora Elena ao longo de seus breves vinte anos de vida, seu amor pelas artes e a influência exercida nos que lhe eram próximos. E é neste último ponto que as irmãs por vezes se confundem e passam a ser uma só pessoa, tornando Elena talvez o exemplo mais superlativo e latente de fusão entre um diretor e seu personagem/objeto de abordagem.

O documentário, por certo, é produto do longo processo de superação da dor que Petra confessa ter experimentado, sendo muito provavelmente a maneira final encontrada por ela para exorcizar o sofrimento deixado pelo fantasma da cruel morte da irmã. Elena retrata o drama enfrentado por uma família em seu íntimo, o que em momento algum impede que o filme goze de uma ressonância universal, êxito esse garantido face a habilidade de Petra em ser contida e concisa e graças a singularidade de uma linguagem cinematográfica capaz de simultaneamente machucar e encantar.

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1.MORISAWA, Mariane. Pessoal e Intransferível. In. Revista Língua Especial. Cinema & Linguagem. São Paulo: Segmento. Outubro de 2011. p. 17.
2-4.   LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia Mesquita. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 75/51/52.
5. Neste sentido, Mariane Morisawa alerta que “a vontade de chegar à verdade pode passar por caminhos supostamente ficcionais, gerando uma discussão sobre o que é real. […] Os limites atenuados entre ficção e o documentário parecem transformar o documentário em algo que não é totalmente real”. De qualquer forma, “o recurso a instrumentos ficcionais pode romper com o dogma do ‘totalmente real’ mas ainda assim vir carregado de verdade” (Pessoal e Intransferível. In. Revista Língua Especial. Cinema & Linguagem. São Paulo: Segmento. Outubro de 2011. p. 20-1).
6-8. LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia Mesquita. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 55.
9-10. Pessoal e Intransferível. In. Revista Língua Especial. Cinema & Linguagem. São Paulo: Segmento. Outubro de 2011. p. 17/21.
11. Debate com Petra Costa, Jorge Furtado e Eduardo Bueno em Porto Alegre. http://www.elenafilme.com/noticias/debate-com-petra-costa-jorge-furtado-e-eduardo-bueno/#sthash.3NpBE18A.dpuf. Acesso em 15.08.13.

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