10 Grandes Documentários Recentes

Por Gabriel Oliveira – Blog CineSet – 17/7/2014

Gênero muitas vezes rejeitado pelo grande público, o documentário é muito mais do que uma mera reportagem ou um aglomerado de depoimentos chatos, ao contrário do que muita gente comumente pensa. Longe de ser uma representação fiel da realidade, assim como a ficção, através do cinema documental é possível contar uma amplitude de histórias, explorando diversas técnicas. Por isso, o Cine Set traz hoje uma lista de dez documentários recentes, produzidos entre 2010 e 2014, com produções que valem a pena ser conferidas. Acompanhe!

1. O Ato de Matar (2012), de Joshua Oppenheimer

O Ato de Matar é a prova de que às vezes a vida real pode ser mais assustadora do que a ficção. Na Indonésia, o líder militar Anwar Congo e seus “comparsas” promoveram uma série de assassinatos após chegar ao poder através de um golpe militar, em 1965. Hoje, todos vivem livremente, orgulhosos de seus crimes e celebrados como heróis.

A fim de mergulhar nesse período obscuro da história do país que ainda não foi condenado nem pela própria sociedade, Joshua Oppenheimer decide convidar Congo e outros militares envolvidos nos assassinatos a reencenarem dramaticamente suas táticas de tortura e matança, com direito a figurinos, maquiagem e efeitos especiais. O resultado é assombrador e surreal, desvelando as memórias dos assassinos e os confrontando com a responsabilidade de seus atos.

2. Blackfish – Fúria Animal (2013), de Gabriela Cowperthwaite

Denúncia e revolta dão o tom de Blackfish, documentário que retrata a vergonhosa realidade por trás da SeaWorld, uma das principais empresas de espetáculos aquáticos protagonizados por orcas, golfinhos e outros animais. O filme poderia ficar restrito apenas aos ativistas  e amantes de animais, mas Gabriella Cowperthwaite é eficiente ao defender sua tese sem recorrer a uma postura cega e apaixonada.

Para isso, a pesquisa empregada pela diretora, através de depoimentos incriminadores e imagens e dados chocantes, revela a cultura de tortura por trás desses espetáculos, e as consequências trágicas do desrespeito não só aos animais, mas a muitos dos profissionais envolvidos.

3. As Canções (2011), de Eduardo Coutinho

Das muitas perdas que o cinema teve em 2014, Eduardo Coutinho foi uma das mais brutais e inesperadas. Aos 80 anos de idade, o diretor nos deixou com um legado de obras historicamente importantes, como Cabra Marcado para Morrer, e filmes que exploravam aspectos da sociedade brasileira, como O Fio da Memória e Boca de Lixo. Suas últimas produções foram marcadas por um tom mais intimista, que deixava ainda mais claro a capacidade que Coutinho tinha de descobrir, no cotidiano alheio, histórias de vida interessantes e inesperadas.

O último desses projetos foi As Canções, de 2011. No mesmo esquema de Jogo de Cena, Coutinho recebe anônimos em um estúdio, e pede que eles contem histórias relacionadas a uma canção que os marcou. Daí surgem muitos relatos emocionados e até mesmo divertidos, como o caso de um marinheiro aposentado que decide como será sua própria saída de cena, ou personagens que cantam composições próprias sobre amores nunca esquecidos. Em um filme extremamente simples e direto, Coutinho revela muito da relação íntima de um povo com a música brasileira e, claro, com a cafonice do amor.

4. ELENA (2013), de Petra Costa

“Você é minha memória inconsolável”, diz Petra Costa em certo momento do filme, referindo-se à irmã, Elena. É uma frase pesada e dolorosa, mas que define bem um dos principais elementos que compõe o filme de Petra: memórias. ELENA é a forma que Petra encontrou para tentar superar a dor da perda de sua irmã mais velha. Para tanto, em vez de constituí-lo de imagens de apoio e depoimentos secos, a jovem diretora investe em um conglomerado de lembranças e sonhos (ou pesadelos), a partir de trechos de fitas VHS antigas, fragmentos de suas andanças, cenas de dança na água e uma narração quase onipresente, marcada pelo texto reflexivo e poético. Esse mosaico extremamente pessoal acaba dando um formato não-convencional ao seu documentário, que vem carregado de lirismo em meio a tragédia.

Cercado de muita publicidade – como um teaser misterioso com a presença de “globais” –, o filme atingiu um sucesso inesperado no ano passado, e este ano começou sua incursão nos EUA. Embora o jogo de marketing certamente tenha ajudado, isso não tira os méritos de Elena: ao mergulhar na sua própria dor, Petra cria um retrato não só da irmã, mas dela mesma e da mãe. A dor das três personagens, ainda que envolta em uma situação bem particular, tem um caráter quase universal que envolve o espectador na trajetória de Petra.

5. Exit Through the Gift Shop (2010), de Banksy

Mesmo com todas as dúvidas quanto à veracidade da história contada em Exit Through the Gift Shop, o fato é que o filme é uma divertida obra que põe em debate a arte nos dias atuais. Com uma cara pop, o documentário narra a história (supostamente real) de Thierry Guetta, um francês que vive em Los Angeles e quer fazer um filme sobre os expoentes da street art na cidade. No meio do caminho, porém, Guetta decide se tornar o próprio artista, adotando a alcunha de “Mr. Brainwash” – mas obviamente sem ter a menor ideia do que está fazendo. É desse clima de megalomania de Guetta que o polêmico Banksy se aproveita para fazer seu filme.

Conhecido por suas obras de graffiti que combinam doses de humor negro, ironia e críticas sociais, Banksy emprega esse mesmo tom sarcástico ao filme, tornando a experiência de acompanhar as loucuras do Mr. Brainwash mais divertida, mas sem se esquecer de levantar um ponto importante: afinal de contas, o que ele está fazendo pode ser considerado arte? Como validar o que é e o que não é arte? Guetta pode até não existir, e, se esse for o caso, essa é a maior peça que Banksy já pregou em todos nós – e, mesmo assim, sua maior obra.

6. A Imagem Que Falta (2013), de Rithy Panh

Em 1975, o governo do Khmer Vermelho tomou o controle do Camboja, assolando o país com uma matança generalizada de intelectuais e artistas e a escravidão de milhões de habitantes que passaram a trabalhar em campos de concentração. No entanto, poucos registros sobraram desse período obscuro da história cambojana.

Sem fotos e com poucas cenas de arquivo, a solução encontrada pelo cineasta Rithy Pahn para recriar sua infância dolorosa nesse período é um recurso tão frágil quanto as vidas perdidas nessa época: através de pequenos bonecos esculpidos em madeira, o diretor dá vazão a suas recordações e reencena passagens importantes da época. O depoimento pessoal de Pahn, aliado às figuras de madeira, constroem um filme memorável, e muitas vezes, doloroso em seu retrato do sofrimento de um povo.

7. Indie Game: The Movie (2011), de James Swirsky e Lisanne Pajot

Premiado no Festival de Sundance de 2012, o documentário dirigido pela dupla de canadenses James Swirsky e Lisanne Pajot retrata as dificuldades enfrentadas por uma série de desenvolvedores independentes de videogames no processo de criação dos seus jogos. O trunfo de Indie Game está em explorar os objetivos desses personagens e sua obsessão em criar um produto quase perfeito.

Além disso, o filme levanta questões interessantes sobre o propósito desses jogos, pondo em xeque o videogame como uma forma de arte. Afinal de contas, se é a maneira de se expressar encontrada pelos personagens em questão, por que não seria?

8. José e Pilar (2010), de Miguel Gonçalves Mendes

Se é verdade o dito de que por trás de todo grande homem, há uma grande mulher, a relação entre José Saramago e Pilar Del Río é a prova viva disso. Tomando o relacionamento de 25 anos entre os dois como ponto de partida, o filme de Miguel Gonçalves Mendes é um retrato intimista do cotidiano do saudoso escritor português, falecido em 2010, e responsável por obras como Ensaio Sobre a Cegueira e O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Revelando uma personalidade simpática por baixo da expressão carrancuda, Saramago se mostra bem à vontade em frente à câmera, seja em entrevistas ou em momentos espontâneos “flagrados” por Miguel – como a cena em que o escritor aparece compenetrado em frente ao computador, e descobrimos em seguida que ele não está escrevendo, mas sim jogando paciência.

Mais do que Saramago, o filme mostra como a jornalista e tradutora Pilar Del Río desempenha um papel fundamental na vida do marido, organizando sua vida e preservando sua obra. A fotografia melancólica e a competente montagem, aliadas ao carisma do casal de protagonistas, tornam o documentário uma experiência inspiradora ao revelar mais do trabalho e da vida do escritor e da mulher forte que o acompanhava e humanizar o casal.

9. Pina (2011), de Win Wenders

O trabalho extraordinário da coreógrafa alemã Pina Bausch encontra nas mãos de Win Wenders uma homenagem sensível que deixa a artista presente em cada cena do filme mesmo que ela não apareça. Além de depoimentos dos dançarinos que faziam parte da companhia dirigida por Pina, Wenders recria as coreografias da artista em pleno espaço urbano, assim preservando a criação desta para a posteridade.

Mais do que um puro registro, o filme de Wenders é uma viagem deslumbrante que chega a ampliar as possibilidades das danças de Pina, ao empregar recursos do cinema para tanto, como a montagem que alterna velhos e jovens no palco durante uma das coreografias.

10. Raul – O Início, o Fim e o Meio (2012), de Walter Carvalho

Entender a metamorfose ambulante que era Raul Seixas pode ser difícil, mas Walter Carvalho dominou bem a tarefa em seu documentário. Através de depoimentos de amigos, parentes e parceiros de Raul, envoltos numa montagem bem elaborada, o filme consegue fazer um retrato digno ao artista.

Ao contrário de cinebiografias “chapa-branca”, o documentário consegue abarcar bem os vários extremos de Raul, mesmo em sua fase mais decadente. Logo, o resultado é um registro amplo e emocionante, capaz de atrair não só os fãs, mas também gente que não conhece a obra de um dos nomes mais marcantes do rock nacional.

Bônus: A Cidade (2012), de Liliana Sulzbach

Exibido no Amazonas Film Festival de 2012, o curta-metragem A Cidade recebeu um prêmio especial do júri por conta da sensibilidade do trabalho. Nada mais justo, já que o filme de Liliana Sulzbach mostra com delicadeza o cotidiano da comunidade Itapuã, no Rio Grande do Sul, formada por poucos moradores, todos acima de 60 anos. Liliana vivencia o ritmo de vida deles, e ouve atentamente suas histórias, guardando para revelar ao espectador apenas no final o porquê daquelas pessoas estarem ali, tão isoladas do resto o mundo. E quando enfim descobrimos, revemos toda a história de novo, com uma nova percepção. Mais do que um mero truque, é um exercício de ponto de vista da diretora sobre os personagens, com classe.

 

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